quinta-feira, 7 de junho de 2012

O poder do Cofrinho


Para os que não sabem o que é o cofrinho aqui vai um trecho do livro "Cofre uma Lenda ignorada", do professor Dr. Ivon Viwstoing mestre em história antiga em Oxford: “O cofrinho é a parte do corpo que fica exposta quando alguém resolve se abaixar. A camisa sobe e a calça desce e o cofrinho fica a mostra. Um erro muito comum cometido pelos leigos é achar que ao mostrar as nádegas desnudas você mostra o cofre junto. Isso não é possível, pois o cofrinho é uma combinação do final das costas e o começo da bunda” escreveu Viwstoing.

Você deve estar se perguntando, não é qualquer pessoa que consegue pagar cofrinho? Esse é um erro comum meu caro leitor. O domínio da arte de fazer cofrinho é milenar e apenas algumas pessoas conseguem executar essa arte com grande precisão. E para chegar a essa perfeição são anos de muito esforço e treinamentos diários.

Há muito tempo atrás na época dos homens das cavernas, quando um homem queria conquistar uma mulher ele fazia a dança sensual do cofrinho. O que melhor soubesse executar essa dança se tornava o protetor da tribo e o homem que desposaria qualquer mulher que escolhesse. E essa tradição foi mantida por anos, passando pela Grécia antiga, os egípcios e até os celtas. Mas fé Cristã começou a vigorar entre os povos essa arte foi banida. Muitos alegam que isso foi causado por um Papa que não sabia fazer cofrinho então enfurecido com sua falta de habilidade ele proibido qualquer um que fizesse ou tentasse fazer.

Seus esforços para acabar com o cofrinho foram em vão, às pessoas ainda se reunião escondida para apreciar um bom cofre. O Papa, que era ardiloso em seus pensamentos, resolveu criar algumas medidas mais eficazes para reprimi-los. Primeira medida foi adotar a batina para todos os membros da ordem religiosa, vestimenta que não permite a livre expressão do cofre.

E a segunda medida foi a mais terrível de todas, ele pagou a um grupo de pessoas formadoras de opinião da época para ridicularizar qualquer um que cometesse o delito do cofre. Este grupo andava pela cidade à noite e se infiltrava nas festas do cofre, lá eles espalhavam boatos e faziam piadinhas. O tempo foi passando e essa arte, quase um Culto de adoração aos Deuses, foi esquecida e em seu lugar ficaram apenas as piadinhas e o desprezo de um povo facilmente manipulado pelos poderosos.

Então você que sempre fala quando vê um cofre: “se tivesse uma moeda eu depositava”, lembre-se que esta pessoa que você está ridicularizando é um herói. Toda vez que um encanador, mecânico, amigo ou até mesmo seu tio lhe mostrar o cofre não faça piadas e sim aplauda esse homem que tem coragem para falar não ao sistema opressor.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Montanismo


O Montanismo foi um movimento cristão fundado por Montano por volta de 156-157 (ou 172), que se organizou e difundiu em comunidades na Ásia Menor, em Roma e no Norte de África. Por ter se originado na região da Frígia, Eusébio de Cesaréia relata em sua História Eclesiástica (V.14-16) que ela era chamada de Heresia Frígia na época.

História

Citando Apolinário de Hierápolis, Eusébio afirma que Montano teria nascido na Frígia (Ásia Menor Romana, hoje Turquia), Montano afirmava possuir o dom da profecia, e que havia sido enviado por Jesus Cristo para inaugurar a era do Paráclito. Duas mulheres que o acompanhavam, Priscila (ou Prisca) e Maximila, afirmavam que o Espírito Santo falava através delas. Durante os seus êxtases anunciavam o fim iminente do mundo, conclamando os cristãos a reunirem-se na cidade de Pepusa, na Frígia, onde surgiria a Jerusalém celeste, uma vez que uma nova era cristã se iniciava com esta nova revelação divina.

O seu adepto mais famoso foi Tertuliano (c. 170-212), um dos primeiros doutores da Igreja, autor de inúmeras obras em defesa da Cristandade. Em torno de 210, insatisfeito com o pensamento cristão e suas práticas, uniu-se ao Montanismo, sendo considerado herético, embora não haja evidências concretas de que tenha fundado uma seita própria.

As perseguições à seita aumentaram sensivelmente durante o governo do imperador Constantino I, que contra ela expediu severos decretos imperiais. O movimento perdurou, entretanto, até ao século VIII.

Características

O movimento caracterizou-se como uma volta ao profetismo, pretendendo revalorizar elementos esquecidos da mensagem cristã primitiva, sobretudo a esperança escatológica. Propunha um rigoroso ascetismo, visando à preparação para o momento final, preceituando-se a castidade durante o casamento e proibindo-se as segundas núpcias.

No plano alimentar instituiu-se o jejum durante duas semanas por ano e a xerofagia (consumo de alimentos secos), sem o consumo de carne. Negavam a absolvição aos réus de pecados graves (mesmo após o batismo com confissão e arrependimento). As mulheres eram obrigadas ao uso de véu nas funções sagradas. Recomendava-se aos fiéis que não fugissem às perseguições e que se oferecessem voluntariamente ao 
martírio.

Os Montanistas viviam separados da igreja ortodoxa, denominando-se como "pneumáticos" (inspirados pelo sopro do espírito), em oposição aos demais cristãos, considerados "psíquicos" ou racionalistas.

Os primeiros sínodos ocuparam-se do Montanismo e vários apologistas o atacaram, uma vez que se temia a violência anti-romana da seita, cuja busca deliberada pelo martírio era percebida como um perigo para a paz entre a cristandade e o Estado. A Igreja, então já suficientemente organizada, reprimia ainda a inspiração profética que terminou se refugiando entre as seitas.

A resistência que o Montanismo impunha à instituição eclesiástica, tornava-o perturbador à hierarquia, uma vez que o movimento respondia às necessidades e anseios de largas camadas cristãs, desiludidas ante o retardamento da parusia, razão de sua rápida expansão. Considera-se por fim, que as violentas oposições que suscitou no meio cristão romano demonstram que não se tratava apenas de uma simples resistência à heresia, mas sim de um conflito teológico entre a igreja de Roma (Ocidente) e a Asiática (Oriente), da qual o Montanismo surgia como um desenvolvimento natural.

Parusia 

Segunda vinda de Cristo, Segundo Advento, com o significado imediato e simples de "presença” (transliterado=parousia do grego) é termo usualmente empregado com a significação religiosa sobre a "volta gloriosa de Jesus Cristo, no final dos tempos, para presidir o Juízo Final", conforme crêem as várias religiões cristãs e muçulmanas, inclusive sincréticas e esotéricas.
As especificidades sobre o tema são definidas individualmente por cada religião ou expressão religiosa, conforme a sua crença, com pontos semelhantes e não tão semelhantes.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Deus, segundo Spinoza


Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

A vida sempre continua, senão o universo seria uma grande estupidez, mas vive como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. . Tenha certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... . Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Aborrece-me quando me louvem. Cansa-me que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Sentes-te olhado, surpreendido? ... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres?

Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti.

Baruch Spinoza.

domingo, 1 de abril de 2012

Devir

Devir - é um conceito filosófico que qualifica a mudança constante, a perenidade de algo ou alguém. Surgiu primeiro em Heráclito e em seus seguidores; o devir é exemplificado pelas águas de um rio, “que continua o mesmo, a despeito de suas águas continuamente mudarem.” Devir é o desejo de tornar-se. Recebe também a acepção nietzscheana do "torna-te quem tu és", usada em um dos seus escritos. Traduz-se de forma mais literal a eterna mudança do ontem ser diferente do hoje, nas palavras de Heráclito: “O mesmo homem não pode atravessar o mesmo rio, porque o homem de ontem não é o mesmo homem, nem o rio de ontem é o mesmo do hoje". O devir é a lei do mundo. Os fenômenos se repetem, é verdade, mas não se repete o mesmo fenômeno: o raio de hoje é sempre um raio, mas não é aquele de ontem; os seres viventes são sempre classificáveis em espécies, mas os seres que vivem hoje não são mais aqueles do passado. Aliás, cada coisa jamais é a mesma; dia a dia perde e conquista algo mesmo quando aos nossos olhos desapareceu para sempre... ...s.m. Filosofia. Movimento pelo qual as coisas se transformam.  V.i. Vir a ser, tornar-se, transformar-se.

A teoria do conhecimento


O conhecimento
A teoria do conhecimento é um ramo da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados com a crença e o conhecimento. É o estudo científico da ciência (conhecimento), sua natureza e suas limitações.

A epistemologia estuda a origem, a estrutura, os métodos e a validade do conhecimento, motivo pelo qual também é conhecida como teoria do conhecimento. Relaciona-se com a metafísica, a lógica e a filosofia da ciência, pois, em uma de suas vertentes, avalia a consistência lógica de teorias e suas credenciais científicas. Este fato torna-a uma das principais áreas da filosofia (à medida que prescreveria "correções" à ciência). A sua problemática compreende a questão da possibilidade do conhecimento - nomeadamente, se é possível ao ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno, dos limites do conhecimento (haveria realmente uma distinção entre o mundo cognoscível e o mundo incognoscível?) e da origem do conhecimento (Por quais faculdades atingimos o conhecimento? Haverá conhecimento certo e seguro em alguma concepção a priori?).

Pode-se dizer que a epistemologia se origina em Platão. Ele opõe a crença ou opinião ("δόξα", em grego) ao conhecimento. A crença é um determinado ponto de vista subjetivo. O conhecimento é crença verdadeira e justificada.
A teoria de Platão abrange o conhecimento teórico, o saber que. Tal tipo de conhecimento é o conjunto de todas aquelas informações que descrevem e explicam o mundo natural e social que nos rodeia. Este conhecimento consiste em descrever, explicar e predizer uma realidade, isto é, analisar o que ocorre, determinar por que ocorre dessa forma e utilizar estes conhecimentos para antecipar uma realidade futura.

Há outro tipo de conhecimento, não abrangido pela teoria de Platão. Trata-se do conhecimento técnico, o saber como.

A epistemologia também estuda a evidência (entendida não como mero sentimento que temos da verdade do pensamento, mas sim no sentido forense de prova), isto é, os critérios de reconhecimento da verdade.

Ante a questão da possibilidade do conhecimento, o sujeito pode tomar diferentes atitudes:

Dogmatismo: atitude filosófica pela qual podemos adquirir conhecimentos seguros e universais, e ter certeza disso.

Cepticismo: atitude filosófica oposta ao dogmatismo, a qual duvida de que seja possível um conhecimento firme e seguro, sempre questionando e pondo à prova as ditas verdades. Esta postura foi defendida por Pirro de Élis.

Relativismo: atitude filosófica defendida pelos sofistas que nega a existência de uma verdade absoluta e defende a idéia de que cada indivíduo possui sua própria verdade, que é em função do contexto histórico do indivíduo em questão.

Perspectivismo: atitude filosófica que defende a existência de uma verdade absoluta, mas pensa que nenhum de nós pode chegar a ela senão a apenas uma pequena parte. Cada ser humano tem uma visão parcial da verdade. Esta teoria foi defendida por Nietzsche e notam-se nela ecos de platonismo.

Saber que, saber como e conhecimento por familiaridade. 

Em geral, a epistemologia discute o conhecimento proposicional ou o “saber que”. Esse tipo de conhecimento difere do “saber como” (know-how) e do “conhecimento por familiaridade”. Por exemplo: sabe-se que 2 + 2 = 4 e que Napoleão foi derrotado em Waterloo; e essas formas de conhecimento diferem de saber como andar de bicicleta ou como tocar piano, e também diferem de conhecer uma determinada pessoa ou estar "familiarizado" com ela. Alguns filósofos consideram que há uma diferença considerável e importante entre “saber que”, “saber como” e “familiaridade” e que o principal interesse da filosofia recai sobre a primeira forma de saber. 

Em seu ensaio Os Problemas da Filosofia, Bertrand Russell distingue o “conhecimento por descrição” (uma das formas de saber que) do “conhecimento por familiaridade”. Gilbert Ryle dedica atenção especial à distinção entre “saber que” e “saber como” em seu O Conceito de Mente. Em Personal Knowledge, Michael Polanyi argumenta a favor da relevância epistemológica do saber-como e do saber-que. Usando o exemplo do equilíbrio envolvido no ato de andar de bicicleta, ele sugere que o conhecimento teórico da física na manutenção do estado de equilíbrio não pode substituir o conhecimento prático sobre como andar de bicicleta. Para Polanyi, é importante saber como essas duas formas de conhecimento são estabelecidas e fundamentadas. Essa posição é a mesma de Ryle, que argumenta que, se não consideramos a diferença entre saber-que e saber-como, somos inevitavelmente conduzidos a um regresso ao infinito. 

Mais recentemente, alguns epistemólogos (Ernest Sosa, John Greco, Jonathan Kvanvig, Linda Trinkaus Zagzebski) argumentaram que a epistemologia deveria avaliar as propriedades das pessoas (isto é, suas virtudes intelectuais) e não somente as propriedades das proposições ou das atitudes proposicionais da mente. Uma das razões é que as formas superiores de processamento cognitivo (como, por exemplo, o entendimento) envolveriam características que não podem ser avaliadas por uma abordagem do conhecimento que se restrinja apenas às questões clássicas da crença, verdade e justificação.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O Caminho para o Tao


O Tao de que se pode falar não será o Tao eterno.

Se pudermos dar-lhe um nome, não será o Tao eterno.

Aquele que não tem nome é a origem do céu e da terra;

Aquele que tem nome é a mãe de todas as coisas.

Assim, quando estamos sem desejo podemos observar indescritíveis maravilhas;

Quando estamos demasiado ávidos, não vemos mais que vestígios.

Ambos provêm da mesma fonte,

Mas trazem nome diferente.

Ambos são chamados Misteriosos.

O mistério do Misterioso é a porta que dá acesso às maravilhas indescritíveis.



2 – O CONHECIMENTO DIALÉTICO



Se o mundo concorda sobre a beleza, é porque existe a feiura.

Se todos concordam sobre o bem, é porque existe o mal.

O “ser” e o “não ser” nascem um do outro;

O difícil e o fácil são complementares;

O longo e o baixo nascem por comparação;

O alto e o baixo são interdependentes;

O som e o silêncio estão em mútua harmonia;

O anterior e o posterior são correlativos.

É por isso que o Sábio entrega-se ao Não-agir, e ensina silenciosamente.

As coisas inumeráveis são feitas sem a menor palavra.

A Natureza dá nascimento, mas nada possui.

Ela age, mas não exige nenhuma submissão.

Ela tem mérito, mas não o reclama.

O fato de que ela nada pretende a torna indispensável.



3 – O GOVERNO DO SÁBIO



Não exaltar os homens de valor impede as pessoas de rivalizar;

Não ambicionar coisas raras impede as pessoas de roubar;

Não exibir o que possa ser desejável evita profanar o coração das pessoas.

É por isso que o Sábio dirige sua vida esvaziando seu coração, reforçando seu estômago,

Suavizando suas ambições, reforçando seus ossos.

Fazei sempre de modo que as pessoas não tenham conhecimento nem desejo;

Fazei de modo que os intelectuais não ousem interferir.

Que haja não ação e nada ficará fora da ordem.



4 – O VAZIO INESGOTÁVEL



O Tao é um vazio, mas, quando dele se faz uso, não se esgota jamais.

Ele é tão profundo que parece ser a fonte de todas as coisas.

Embota o que é agudo, resolve os problemas;

Torna difuso o brilho que ofusca, unifica o mundo;

Que profundidade! Parece que há aí qualquer coisa.

Não sei de onde ele saiu.

Dir-se-ia que sua existência é anterior à do Ancestral.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Papo - Furado

" - Iminência...
- Você quer dizer 'eminência'.
- O quê?
- Você disse 'iminência'. O certo é 'eminência'.
- Perdão. Sou um servo, um réptil, um nada. Uma sujeira no seu sapato de cetim. Mas sei o que digo. E eu quis dizer 'iminência'.
- Mas está errado! O tratamento correto é 'eminência'.
- Não duvido da sua eminência, monsenhor, mas o senhor também é iminente. Ou uma eminência iminente.
- Em que sentido?
- No sentido filosófico.
- Você tem dois minutos para explicar, antes que eu o excomungue.
- Somos todos iminentes, monsenhor. Vivemos num eterno devir, sempre às vésperas de alguma coisa, nem que seja o almoço ou a morte. À beira do nosso futuro como um precipício. A iminência é o nosso estado natural. Pois o que somos nós, se não expectativas?
- Você, então, se acha igual a mim?
- Nesse sentido, sim. Somos coiminentes.
- Com uma diferença. Eu estou na iminência de mandar açoitá-lo por insolência, e você está na iminência de apanhar.
- O senhor tem esse direto hierárquico. Faz parte da sua eminência.
- Admita que você queria dizer 'eminência' e disse 'iminência'. E recorreu à filosofia para esconder o erro.
- Só a iminência do açoite me leva a admitir que errei. Se bem que...
- Se bem que?
- Perdão. Sou um verme, uma meleca, menos que nada. Um cisco no seu olho, monsenhor. Mas é tão pequena a diferença entre um 'e' e um 'i' que o protesto de vossa iminência soa como prepotência. Eminência, iminência, que diferença faz uma letra?
- Ah, é? Ah, é? Uma letra pode mudar tudo. Um emigrante não é um imigrante.
- É um emigrante quando sai de um país e um imigrante quando chega em outro, mas é a mesma pessoa.
- Pois então,? Muitas vezes a distância entre um 'e' e um 'i' pode ser um oceano. E garanto que você terá muitos problemas na vida se não souber diferenciar um ônus de ânus.
- Isso são conjunturas.
- Você quer dizer 'conjeturas'.
- Não, conjunturas.
- Não é 'conjeturas' no sentido de especulações, suposições, hipóteses?
- Não. 'Conjunturas' no sentido de situações, momentos históricos.
- Você queria dizer 'conjeturas' mas se enganou. Admita.
- Eu disse exatamente o que queria dizer, monsenhor.
- Você errou.
- Não errei, iminência.
- Eminência! Eminência."


Por: Luis Fernando Veríssimo